ARTIGO ABETRI: Muito além dos impostos: o que realmente sustenta uma empresa

Por Camila Grando | Contadora Tributarista, especialista em ICMS e estratégia fiscal

O que mais escuto dos empresários é a queixa sobre os altos impostos. E não é sem razão: o Brasil combina uma carga tributária relevante com enorme complexidade, o que dificulta o cotidiano das empresas, pressiona os preços e reduz a competitividade em um mercado no qual o poder de compra também está cada vez mais apertado. Empreender no Brasil, em muitos momentos, parece quase uma missão impossível.

Mas, como profissional contábil, sinto que também tenho o dever de ampliar essa conversa. Mesmo diante de todas essas dificuldades, as empresas precisam encontrar formas de sobreviver, crescer e se manter rentáveis. Para isso, não basta olhar apenas para os impostos.

Precisamos estudar todas as possibilidades disponíveis, compreender profundamente a operação e buscar, incansavelmente, melhorias – por menores que sejam – em todos os pontos do negócio. É assim que uma empresa agrega valor aos seus produtos e serviços, gera confiança, constrói credibilidade e fortalece seus resultados.

Empresas fortes conhecem seus números, conectam suas áreas e corrigem os erros antes que eles virem rotina.

Toda empresa erra, enfrenta problemas, toma decisões ruins, perde oportunidades e precisa mudar de direção. Isso faz parte do jogo.

O que separa uma empresa saudável de uma empresa frágil não é a ausência de erros. É a capacidade de identificar o problema, entender sua causa, corrigir o processo, evitar que ele aconteça novamente.

Abrir uma empresa é diferente de construir uma empresa duradoura

Os números ajudam a mostrar o tamanho desse desafio.

Segundo o estudo Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022, do IBGE, entre 261.302 empresas empregadoras nascidas em 2017, 76,2% continuavam ativas após o primeiro ano, mas apenas 37,3% permaneciam ativas cinco anos depois. Entre as empresas com até nove pessoas assalariadas, a sobrevivência após cinco anos foi de 35,9%; entre as maiores, chegou a 60,9%. O recorte considera empresas com pelo menos uma pessoa assalariada e não inclui os microempreendedores individuais – MEIs (IBGE, 2024).

Isso não significa que todas tenham encerrado as atividades por problemas de gestão. A economia, o setor, o acesso ao crédito e diversas condições externas também influenciam.

Mas o dado deixa um alerta:

Abrir uma empresa é relativamente simples. Construir uma empresa capaz de permanecer exige método.

O mesmo estudo identificou 70.032 empresas de alto crescimento em 2022. Elas correspondiam a 2,6% das empresas empregadoras e concentravam 8 milhões de pessoas assalariadas. Para o IBGE, são empresas que cresceram, em média, pelo menos 10% ao ano no número de assalariados durante três anos consecutivos e que possuíam dez ou mais pessoas assalariadas no início do período (IBGE, 2024).

Crescer de forma contínua não é comum. Exige estrutura, pessoas, informação, capacidade de adaptação, visão de oportunidades e conhecimento profundo da operação.

Faturamento não conta a história inteira

Muitos empresários sabem quanto venderam no último mês, mas poucos conseguem responder, com a mesma segurança:

• Quanto realmente sobrou?

• Quais produtos têm maior margem?

• Quais clientes são mais rentáveis?

• Onde estão os desperdícios?

• Quanto custa entregar cada venda?

• Quais processos consomem dinheiro sem gerar resultado?

Faturar mais não significa lucrar mais.

Uma empresa pode aumentar as vendas e, ao mesmo tempo, perder margem. Pode ter dinheiro entrando na conta e ainda enfrentar dificuldades financeiras. Escuto muitos relatos de empresários dizendo que, quanto mais a empresa cresce, mais apertada parece ficar – a ponto de surgir medo do próprio crescimento.

Fechar-se para o crescimento impede a empresa de enxergar oportunidades. Mas crescer sem estrutura também pode ampliar problemas que já existiam.

O primeiro passo para buscar um crescimento saudável é conhecer profundamente o próprio negócio. Isso exige entender como a empresa compra e escolhe seus fornecedores, acompanha o mercado e os concorrentes, calcula os preços, vende, entrega, controla os custos, administra os estoques, atende os clients, registra as informações, calcula e paga os impostos.

Sem informações confiáveis, o empresário decide no escuro.

O problema tributário pode começar antes do imposto

Antes de existir um imposto para pagar, houve uma operação.

Houve uma compra, um cadastro, um contrato, uma venda, uma classificação fiscal, uma formação de preço e uma nota emitida.

Por isso, muitos problemas que aparecem no setor tributário começaram em outras áreas da empresa.

• escolha inadequada de fornecedores;

• falta de pesquisa de mercado;

• compras cadastradas de forma errada;

• produtos classificados incorretamente;

• receitas diferentes registradas como se fossem iguais;

• estoques que não representam a realidade;

• notas fiscais emitidas sem considerar a operação efetivamente realizada;

• decisões precipitadas;

• créditos tributários que deixam de ser aproveitados.

A contabilidade pode organizar e interpretar as informações da empresa, mas não consegue transformar dados errados em decisões confiáveis.

Nenhum contador corrige sozinho uma operação que produz informações inconsistentes todos os dias.

A contabilidade tem grande importância na saúde da empresa e, muitas vezes, consegue amenizar impactos negativos. Mas precisa agir de forma consultiva e preventiva, porque há decisões que não podem simplesmente ser desfeitas depois que a operação aconteceu. O contador não deve ser procurado apenas quando aparece uma guia alta para pagar.

Também é importante que as empresas contem com profissionais especializados em Direito Tributário para realizar análises preventivas. Muitas vezes, a própria contabilidade pode oferecer esse trabalho – e esse seria o cenário ideal, desde que possua estrutura e qualificação para isso.

Quando contabilidade, tributário e gestão trabalham de forma integrada, a análise pode:

• recuperar valores pagos indevidamente;

• reduzir riscos;

• corrigir desperdícios e falhas de processo;

• identificar e aproveitar créditos legítimos;

• melhorar o resultado;

• orientar a escolha de fornecedores considerando impactos financeiros e tributários;

• revisar as margens de custo e lucro utilizadas na formação dos preços.

A gestão tributária e contábil precisa fazer parte da gestão diária do negócio. As operações devem ser estudadas antes de acontecer e, depois, acompanhadas pelos resultados. Análises tributárias e contábeis bem conduzidas podem proteger – e, em determinados cenários, salvar – a saúde de uma empresa.

Também não é saudável que o empresário fique completamente “na mão” do contador. Ele precisa participar, interessar-se pelos dados da própria empresa, questionar e buscar entender.

Em decisões relevantes, pode ser necessário buscar uma segunda opinião ou envolver profissionais especializados para trabalhar em conjunto. A rotina de apuração de impostos e cumprimento de obrigações acessórias é intensa e pode levar a contabilidade a entrar em um processo automático, sem conseguir enxergar profundamente a realidade de cada cliente. O empresário precisa estar atento, porque isso influencia diretamente seus resultados.

Vendas devem ser o coração da empresa

Sem vendas, não há faturamento, empregos ou continuidade. É preciso investir seriamente em conhecer o mercado, desenvolver o comercial e aumentar – e melhorar – as vendas.

Mas vender sem conhecer custos, margens e capacidade de entrega pode criar uma empresa muito ocupada e pouco lucrativa, especialmente em um cenário de forte concorrência e disputa por preço.

Entrar nessa briga ignorando a própria margem não traz bons frutos. Quando a empresa reduz o preço apenas para ganhar a venda, sem saber quanto aquela operação realmente custa, a conta pode não fechar. É o famoso “pagar para trabalhar”. Não é apenas um jargão: acontece, e acontece muito.

A empresa gira dinheiro, mas não se desenvolve. Não consegue investir em melhorias, permanece apertada, endividada, sofrendo para pagar as contas básicas, e o empresário não consegue levar para casa uma remuneração compatível com o risco e o trabalho assumidos.

É difícil competir de forma justa em um mercado tão pressionado por preços. Essa talvez seja uma das maiores dores do empresário hoje. Mas, para que uma empresa seja saudável e rentável, não existe milagre: ela precisa pagar suas contas, remunerar as pessoas envolvidas e gerar retorno para quem assumiu o risco do negócio.

Nem toda venda é uma boa venda. Vendas ruins podem:

• aumentar o faturamento e reduzir o lucro;

• ocupar a equipe sem gerar retorno;

• comprometer o caixa;

• criar uma promessa que a operação não consegue cumprir;

• prejudicar a experiência do cliente.

Um desconto concedido sem análise pode eliminar a margem. Uma expansão sem estrutura pode aumentar os custos antes que a receita cresça.

Por isso, o comercial precisa conversar com o financeiro, a operação, o estoque, o fiscal e a contabilidade.

A empresa não funciona como um conjunto de departamentos isolados. Precisa existir um ecossistema funcionando.

Conhecimento não é despesa. É estrutura.

Por experiência, sei que empresas que buscam ajuda especializada conseguem sair de cenários muito ruins e voltar a ser positivas e rentáveis. Mas isso não acontece porque o consultor possui uma solução milagrosa. A mudança acontece quando a empresa aceita se conhecer, rever seus processos, organizar seus números e transformar o diagnóstico em ação.

Às vezes, o resultado vem de um crédito tributário que não estava sendo aproveitado. Em outras, vem da correção de um cadastro, da revisão dos custos, da redução do retrabalho, de uma nova estratégia comercial ou de uma mudança no relacionamento com a equipe e com os clientes.

Existem pesquisas que ajudam a tornar esse efeito mais palpável. Na primeira fase do programa Brasil Mais Produtivo, voltado a melhorias em linhas de produção industrial, a avaliação registrou aumento médio de 52,11% na produtividade das linhas atendidas e estimou ganho anual equivalente a 11,11 vezes o investimento total realizado. O próprio relatório ressalva que os indicadores de retorno são potenciais e dependem de fatores externos, como a capacidade de transformar produtividade em vendas e lucro (CEPAL; IPEA, 2018).

Esses números não significam que contratar um profissional seja garantia automática de lucro. Significam que conhecimento especializado, quando encontra uma empresa disposta a aplicar, medir e aperfeiçoar, pode produzir resultados concretos.

O profissional externo ajuda a enxergar aquilo que a rotina já normalizou. Mas é a empresa que precisa permitir que o conhecimento se transforme em cultura.

A empresa cresce quando deixa de enxergar conhecimento apenas como custo.

Cultura não é uma frase na parede

Procedimentos são importantes. E, hoje, construir uma cultura organizacional sólida pode ser uma das chaves para o sucesso.

Eles organizam tarefas, reduzem falhas e definem responsabilidades. Mas uma empresa pode ter manuais impecáveis e continuar enfrentando os mesmos problemas.

Controlar tudo não significa, necessariamente, ter cultura ou processos bem construídos. É preciso método.

Há empresas que criam inúmeros checklists, planilhas e controles, mas acabam apenas sobrecarregando os funcionários. As pessoas preenchem tudo, porém os dados não são utilizados corretamente – ou nem sequer são utilizados. Em muitos casos, o empresário tenta controlar demais os funcionários e, ao mesmo tempo, deixa de gerir as informações que esse controle produz.

A falha acontece quando:

• as pessoas têm medo de comunicar erros;

• os setores não compartilham informações;

• os gestores não aceitam rever decisões;

• as reclamações dos clientes são ignoradas;

• as sugestões dos colaboradores não são ouvidas;

• práticas ruins continuam porque “sempre foi assim”.

Cultura é aquilo que a empresa aceita, repete, recompensa ou ignora.

Uma cultura de melhoria começa quando o problema deixa de ser escondido e passa a ser investigado. Também começa quando os funcionários entendem por que uma tarefa precisa ser feita de determinada forma.

“Fazemos assim há anos” pode ser uma das frases mais perigosas dentro de uma empresa.

Testar é necessário. Improvisar não.

Organização não significa paralisia.

Uma empresa que tem medo de testar novas possibilidades pode deixar de inovar enquanto o mercado continua mudando.

É preciso experimentar:

• novos produtos;

• novos canais de venda;

• tecnologias;

• formas de atendimento;

• processos;

• modelos de trabalho.

Alguns testes não funcionarão. Isso é esperado.

O problema não é tentar e descobrir que uma ideia estava errada. O problema é gastar tempo e dinheiro sem medir o resultado ou aprender alguma coisa.

Um teste responsável precisa ter:

• um objetivo claro;

• um prazo;

• um limite de investimento;

• um indicador de resultado.

Se funcionar, pode ser ampliado. Se não funcionar, deve gerar aprendizado.

Errar faz parte da gestão. Repetir o mesmo erro sem investigar sua causa é falta de gestão.

Compliance não deve travar a empresa

Compliance não significa criar regras para impedir qualquer movimento.

Significa criar segurança para que a empresa possa crescer, testar e decidir sem colocar sua continuidade em risco.

Controles bem construídos ajudam a empresa a:

• reduzir falhas;

• proteger informações;

• cumprir obrigações;

• definir responsabilidades;

• tomar riscos calculados.

Compliance não deve impedir a inovação. Deve tornar a inovação mais segura.

A Reforma Tributária vai testar a empresa inteira

A Reforma Tributária não é um assunto exclusivo da contabilidade ou do setor fiscal.

Ela afetará vendas, compras, preços, contratos, sistemas, cadastros, documentos e processos.

Em 2026, a transição entrou em uma etapa prática, com a fase de testes da CBS e do IBS e a inclusão dos novos campos nos documentos fiscais eletrônicos. Conforme o cronograma oficial divulgado pelo Comitê Gestor do IBS, a partir de 3 de agosto de 2026 os parâmetros de emissão com as informações de IBS e CBS tornam-se obrigatórios para as empresas do regime regular, observados os leiautes e as regras aplicáveis a cada documento fiscal (CGIBS, 2026).

Em 2027, PIS e Cofins serão extintos e a CBS passará a ser cobrada, enquanto a transição do IBS seguirá o cronograma legal. O momento de adaptação dos sistemas, cadastros e processos é agora, em 2026 (Receita Federal, 2025; Lei Complementar nº 214/2025).

A Reforma Tributária não será apenas uma troca de impostos.

Ela exigirá integração entre sistemas, commercial, financeiro, fiscal, contabilidade, fornecedores e clientes.

A empresa que apenas envia documentos ao contador no final do mês estará olhando para a última etapa de um processo muito maior.

Reduzir impostos não resolve uma empresa desorganizada

Toda empresa deve revisar sua tributação. Ela precisa verificar:

• se o regime tributário continua adequado;

• se os benefícios fiscais estão sendo aplicados corretamente;

• se existem créditos não aproveitados;

• se as notas estão sendo emitidas de forma correta;

• se existem riscos que precisam ser corrigidos.

Mas nenhuma recuperação tributária substitui uma operação saudável.

Não adianta recuperar um crédito e continuar vendendo sem margem.

Não adianta reduzir impostos e perder clientes por falhas no atendimento.

Não adianta investir em marketing quando a empresa não consegue entregar o que promete.

Não adianta ter uma contabilidade organizada enquanto a equipe trabalha sem direção.

Melhorar os impostos sem melhorar a empresa não é suficiente.

A empresa mais preparada não terá todas as respostas

O mercado continuará mudando. Novas tecnologias, regras tributárias, hábitos de consumo e relações de trabalho continuarão surgindo.

Nesse cenário, a empresa mais preparada não será aquela que acredita ter todas as respostas.

Será aquela que aprendeu a fazer boas perguntas.

A empresa organizada não é a que nunca erra.

É a que não permite que o erro vire rotina.

Ela investiga, mede, corrige e aprende.

A Reforma Tributária mudará impostos, documentos e sistemas. Mas a mudança mais importante precisa acontecer dentro das empresas: na forma como elas entendem seus processos, conectam seus profissionais e tomam decisões.

No futuro, conhecer a legislação não será suficiente. A empresa precisará, antes de tudo, conhecer profundamente a si mesma.

Fontes consultadas

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

CEPAL; IPEA. Avaliação de Desempenho do Brasil Mais Produtivo. Brasília: CEPAL/Ipea, 2018.

CGIBS — Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços. Prazo para adequação dos sistemas de emissão de notas fiscais ao regulamento do IBS encerra em 31 de julho de 2026. Publicado em 22 maio 2026.

RECEITA FEDERAL DO BRASIL. Entenda a Reforma Tributária do Consumo.

BRASIL. Lei Complementar nº 214, de 16 de janeiro de 2025. Institui o IBS, a CBS e o Imposto Seletivo.